Editorial Da Redação do Aconteceu Ipu
Quando a política tenta transformar a fé em instrumento de disputa
Há momentos em que a disputa política ultrapassa os limites do debate democrático e chega a um terreno extremamente delicado: o da fé e dos símbolos religiosos que fazem parte da história e da cultura brasileira.
A recente polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida reacendeu uma discussão que não deveria ser tratada apenas como mais uma briga eleitoral. Existe uma questão maior por trás dela: até onde grupos políticos podem levar suas disputas ideológicas quando o assunto envolve a fé de milhões de brasileiros?
Uma proposta que não pode ser apagada da história
É fato documentado pela própria Câmara dos Deputados que o então deputado Victório Galli apresentou, em 2007, o Projeto de Lei 2.623/2007. A proposta pretendia alterar a legislação para que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser denominada oficialmente “Padroeira do Brasil” e passasse a ser considerada “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto acabou arquivado.
Independentemente da justificativa apresentada posteriormente pelo autor, trata-se de uma proposta que mexeu diretamente com um dos maiores símbolos religiosos e culturais do país.
E é justamente aí que está o ponto central deste editorial.
Não se combate uma religião atacando seus símbolos
Em uma democracia, qualquer cidadão tem o direito de professar sua fé, não professar religião alguma e defender suas convicções. O Estado brasileiro é laico, e isso precisa ser respeitado.
Mas Estado laico não significa Estado inimigo da religião.
Também não significa que símbolos religiosos historicamente incorporados à cultura nacional devam ser tratados como adversários ideológicos.
Nossa Senhora Aparecida representa, para milhões de brasileiros, uma manifestação de fé, devoção, esperança e identidade cultural. A existência de diferentes tradições religiosas no Brasil não exige que uma seja destruída ou diminuída para que outra possa existir.
A tentativa de transformar Nossa Senhora em alvo político é preocupante
É legítimo criticar decisões da Igreja Católica. É legítimo defender outras religiões. É legítimo discutir o papel da religião na vida pública.
O que merece ser criticado é quando setores políticos e religiosos passam a transformar símbolos de fé em armas de disputa eleitoral.
E isso vale para qualquer lado.
Não há democracia religiosa quando uma crença tenta impor sua visão sobre a outra por meio da força política. Não existe respeito à liberdade religiosa quando o símbolo sagrado de milhões de brasileiros é tratado como algo que precisa ser eliminado para satisfazer uma determinada visão ideológica.
A fé não pode ser propriedade de grupo político
Outro problema é a tentativa de transformar o cristianismo em patrimônio eleitoral de determinado campo político.
Deus não pertence a partido. Jesus Cristo não pertence a candidato. Nossa Senhora Aparecida não pertence a esquerda, direita, bolsonarismo, lulismo ou qualquer outra corrente política.
A religião é maior do que as disputas eleitorais.
Quando políticos utilizam o nome de Deus para conquistar votos e, ao mesmo tempo, setores ligados a esses grupos alimentam conflitos contra símbolos religiosos de outras tradições cristãs, a sociedade precisa questionar essa contradição.
Respeitar a fé também é respeitar quem pensa diferente
O Brasil é um país de enorme diversidade religiosa. Católicos, evangélicos, espíritas, religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, pessoas de outras crenças e também aqueles que não seguem nenhuma religião fazem parte da mesma sociedade.
A solução para essa diversidade não é apagar símbolos.
É aprender a conviver.
Nossa Senhora Aparecida pode ser profundamente significativa para um católico sem que um evangélico seja obrigado a venerá-la. Da mesma maneira, um católico não precisa abandonar sua devoção porque outra pessoa possui uma crença diferente.
O debate precisa ser sobre respeito, não sobre guerra religiosa
É preciso condenar qualquer tentativa de transformar a fé brasileira em uma guerra entre grupos religiosos.
E é preciso cobrar responsabilidade daqueles que utilizam a religião como combustível político.
A discussão sobre o projeto de Victório Galli deve ser feita com fatos: ele existiu, foi apresentado em 2007 e foi arquivado em 2008. Ao mesmo tempo, não se deve atribuir automaticamente a Flávio Bolsonaro uma proposta da qual ele não é autor e que ele nega defender.
Mas o episódio deixa uma lição importante: nenhum projeto político, nenhuma ideologia e nenhum candidato deveria transformar a fé dos brasileiros em instrumento de divisão.
Nossa Senhora Aparecida não precisa ser defendida por partido político.
A fé dos brasileiros também não precisa de autorização de político algum.
O que precisa ser defendido é o respeito à liberdade religiosa, à história e à diversidade de um povo que, apesar de suas diferenças, continua compartilhando o mesmo país.
Por: Afranio Soares
(Redação do Aconteceu Ipu)
** Postagem: Virginia Aragão Soares
(Direto da Redação do Aconteceu Ipu)
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